sobre a perfumista

eu uso o perfume como uma maneira de pensar.

cheguei à perfumaria buscando uma proximidade maior com a natureza e uma relação mais direta com a vida através dos sentidos. comecei a me interessar pela anatomia das plantas, pelas moléculas aromáticas que elas produzem e pela relação entre cheiro e matéria — raízes, madeiras, resinas, folhas, flores, frutos, sementes. ao mesmo tempo, sempre me atraíram a simbologia e os significados que damos culturalmente às plantas. aproximar esses dois mundos acabou sendo um caminho natural.

hoje desenvolvo uma prática que chamo de perfumaria simbólica. as plantas ocupam o centro da minha paleta, mas minha investigação começa antes de qualquer interpretação: começa pelo cheiro. antes de perguntar o que um aroma significa, procuro perceber como ele se apresenta — sua textura, temperatura, peso, movimento, duração — e aquilo que parece fazer em mim. é desse encontro que podem surgir imagens, memórias, símbolos e perguntas.

não acredito que um cheiro carregue um significado único. por isso, minha cartografia não é uma receita, mas uma estrutura de atenção: ela propõe caminhos, enquanto a experiência continua soberana. observo, cheiro, testo, escrevo. muitas vezes começo sem saber onde uma ideia vai terminar; prefiro deixar que a própria experiência revele o caminho.

às vezes começo por um cheiro e encontro uma pergunta. outras vezes começo pela pergunta e procuro o cheiro. depois componho — e volto a cheirar, porque o perfume também responde.

este caderno acompanha esse percurso. é um ateliê aberto para pensamentos, matérias, experimentos e composições.

os perfumes são a parte que consigo engarrafar. o resto precisa ser escrito.

christina mara